Paraulistano

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April 2012

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Quando vale a pena jogar tudo pro alto

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Paisagem em Algodoal (PA) - foto de Henrique Manreza

Jogar tudo para o alto e partir em uma aventura, aberto ao desconhecido, é um desejo recorrente de muita gente que eu conheço. Imagino que, em um ou em vários momentos da vida, quase todo mundo tem vontade de entrar em um avião, olhar pela janelinha e dizer “tchau, emprego, casa, namoro, vou ver o que há pelo mundo e volto quando eu estiver mais leve”.

Nem sempre dá, nem sempre temos coragem e nem sempre vale a pena. A vida também é feita de responsabilidades, de estabilidade, de tédio. Ficar onde se está e tentar fazer a vida melhor pode ser até mais corajoso do que partir.

Ainda assim, mesmo sabendo que idealizamos demais a ideia do “cair na estrada sem destino”, não dá uma certa empolgação e até uma admiração, quando vemos histórias de gente que topou viver o desconhecido e acabou fazendo disso algo interessante? Esse é o caso do Henrique Manreza, um fotógrafo excelente e gente boa ao extremo, que há alguns meses está encarando uma longa viagem pela Amazônia, em um projeto pessoal inspirado: o cara quer fotografar a felicidade.

O Henrique tinha a ideia de ir atrás de gente simples do Norte do Brasil para entender o que é a felicidade para elas. Planejou a viagem e fez o que foi preciso: deixou o emprego em um grande jornal de São Paulo, vendeu a casa na Vila Mariana e partiu. Começou por Roraima e foi avançando em direção ao Pará. Andou de barco, carro, avião, conheceu pessoas incríveis, viu paisagens impressionantes e já escreveu uma porção de histórias sobre as descobertas que fez.

Nas últimas semanas, ele tem andado aqui por Belém. Foi ao Ver o Peso e a Marajó, mas também caminhou sem destino certo, sentindo a cidade, observando as pessoas. Virou um paraulistano temporário.

O bacana é que conversando com o cara, dá pra perceber que ele não vai atrás apenas de histórias para o site ou de fotos para o projeto. Ele de fato passa uns dias com as pessoas, senta-se à mesa com elas, escuta mesmo o que elas têm a contar. É um cara aberto a entender os outros. E não tem nada mais necessário no mundo do que gente assim.

Para saber mais da viagem do Henrique, visite o blog dele.

Apr 19, 20124 notes

March 2012

14 posts

O tradutor de Nova York na Belém dos anos 50

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Imagem: Blog da FAU-UFPA

Olhe para o desenho acima. Ele simboliza a visão sobre Belém de um dos principais cartunistas do século XX, Saul Steinberg.

Colaborador frequente das revistas mais conhecidas dos Estados Unidos e apontado como um “tradutor” do espírito nova-iorquino, Steinberg retratou a Belém de 1952, que fique claro. O Grande Hotel, à direita da figura, com suas mesinhas na calçada, ainda era uma atração. Pela presença marcante nos relatos de quem passou pela cidade, o hotel devia ser bem mais charmoso do que o prédio que hoje ocupa seu lugar, um edifício meia boca onde se instalou o hotel Hilton, na Praça da República.

Mas o que mais chama atenção no desenho são os pássaros, grandes, coloridos e animados. Parece que dá para ouvir o barulho deles, pela expressividade de alguns, que cantam e apontam para algo, como se estivessem no maior diálogo.

Na copa da árvore, as flores parecem “explodir”, em estado de euforia. As formigas e lagartas do tronco também estão bem festivas. São uma confirmação de que a exuberância da natureza foi o que mais marcou a visão de Steinberg sobre a cidade, cravada na floresta que encanta o imaginário gringo.

Para conhecer um pouco mais do Steinberg e da sua passagem pelo Brasil, li esse artigo bem bacana do Daniel Bueno, mestre em arquitetura pela USP. O Daniel conta que Steinberg provocou uma ruptura com o cartum antigo, ao livrar o desenho das exibições técnicas vazias, aquelas que não traziam muita expressividade ao desenho. Steinberg foi o artista que sintetizou o traço do cartum.

Numa livre interpretação minha, fiquei com a impressão de que ele foi para o cartum o que a Coco Chanel foi para moda ou Le Corbusier foi para a arquitetura: a pessoa que limpou os excessos do passado e mostrou que menos é mais. Ao tirar o que não importa, eles deram ao que é essencial um poder ainda maior de comunicação.

Olha só como ele desenhou Paris, cheia de espaços vazios, mas com traços super marcantes.

Romeno, Steinberg morou um bom tempo na Itália, mas se radicou nos Estados Unidos por causa da perseguição aos judeus na Europa dos anos 1930. Virou o queridinho da imprensa americana e ganhou fama pelas dezenas de capas irreverentes que desenhou para a The New Yorker, até hoje uma das revistas mais “cools” do mundo.

Mas, de volta ao trabaho do Daniel Bueno, ele conta ainda que a carreira de Steinberg teve vários pontos de encontro com o Brasil. Primeiro, porque a amizade dele com os irmãos Civita, fundadores da Editora Abril, foi decisiva para abrir portas no mercado editorial dos Estados Unidos e ajustar seu humor ao gosto americano.

Um segundo ponto foi o fato de uma revista carioca, a Sombra, ter sido provavelmente a primeira publicação do mundo a trazer um desenho de Steinberg na capa, antes de ele existir para a The New Yorker.

Por fim, a primeira grande exposição sobre o trabalho de Steinberg, antes mesmo das exposições nos EUA, foi a organizada pelo Museu de Arte de São Paulo, o MASP, em 1952. Foi por causa desse evento que Steinberg veio ao Brasil, assim como foi por causa do curador do MASP, Pietro Maria Bardi, que o artista rodou o país.

Bardi queria que Steinberg retratasse as cidades brasileiras. Ele de fato fez numerosos rascunhos de cenas do Rio, Petrópolis, Salvador e Manaus, entre outras. Porém, na volta aos EUA, somente dois desenhos foram publicados em livros e entraram para o acervo formal do artista: um sobre Recife e este do topo do post, o de Belém. E olha que o Steinberg reclamou, em suas cartas, que o único lugar que ele não conheceu direito foi Belém, porque passou apenas dois dias na cidade, como parada para ir a Manaus.

Entre os rascunhos de Steinberg existe ainda outro desenho que remete a Belém, o que mostra os pitorescos ônibus zeppelin, coletivos bem arredondados que rodavam pelo centro nos anos 1950.

Nesse blog da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA, dá para ver direitinho o desenho do Steinberg e a foto de como era o ônibus de verdade, redondo e com um “bigodinho”, veja aqui embaixo.

Olhando hoje, os zeppelins parecem tanto ter saído de um desenho animado, daqueles em que bombas explodem o tempo todo e bigornas caem do céu, que a realidade da Belém da metade do século, pelo menos nesse caso, era até mais divertida e exagerada do que a própria caricatura.

P.S: Pedro, sua ideia de post foi divertida, como costumam ser suas ideias todas!

Mar 25, 20122 notes
Mar 22, 20128 notes
Belém está vivendo seu manguebeat?

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Foto (Divulgação): O músico Felipe Cordeiro, um dos paraenses que começam a despontar nacionalmente com uma mistura de ritmos bem locais

Um momento bom do dia, na minha vida paulistana, era pegar a Folha de S. Paulo, logo depois de acordar, e folhear o jornal durante o café da manhã, bem no estilo pai de família americana dos anos 50. Em Belém, eu já não folheio o jornal, mas acesso o site. E o prazer de ver uma matéria que me agrada, logo de manhã, é o mesmo. Hoje, eu tive um desses momentos, ao ver uma matéria de capa sobre a música de Belém.

Eles citam dois exemplos de músicos paraenses que estão misturando referências bem típicas do Estado, como o carimbó, com os mais variados ritmos. Um desses músicos, o Felipe Cordeiro já está ficando mais conhecido. Teve perfil na Bravo, está sendo repassado no Facebook dos belenenses, já está meio encaminhado.

Os outros músicos, a Gang do Eletro, têm um som bem mais ligado ao tecnobrega, que é o que de fato se escuta hoje na rua em Belém. Mal comparando, parece um pouco o Cansei de Ser Sexy paraense, só que menos indie e mais safado.

Para completar, à noite, meus amigos Leandro, um paraflunense que sempre divide suas descobertas musicais mais bacanas, e Marcelo, superpaulistano, me mandaram o link de uma música muito legal do Saulo Duarte, um cara que eu não conhecia, mas parece ótimo. O cara também é um paraulistano, mas ao contrário. Saiu de Belém para Sampa e usa as palavras -e o som - para descrever as ruas e bairros de lá

Talvez os especialistas em música achem uma bobagem o que eu vou dizer, mas olhando esses exemplos e juntando com alguns outros que eu vi por aqui, no Palafita e no Mormaço, por exemplo, fico lembrando do que se dizia de Recife nos anos 90, quando o Chico Science estava bombando e todo mundo profetizava que a mistura do regional com o global era o futuro.

OK, os contextos são outros, a própria ideia de misturar música típica com eletrônica ou rock ficou batida, mas, mesmo assim, esse ainda parece ser um dos caminhos mais consistentes pra escapar de uma certa pasteurização na música, não parece?  E Belém, nesse sentido, tá bem na fita. Tem pelo menos uma meia dúzia de bandas começando a fazer sucesso por misturar coisas bem regionais com ritmos mais globais, embalados por um visual meio indie, meio local, e uma atitude “me orgulho de ser de onde sou”. 

Ou, viajando mais ainda, cosiderando-se que o tecnobrega já é a mistura do brega regional com a batida tecno global, será que hoje só estamos vendo a radicalização de um “manguebeat belenense” que começou há muito anos e que não virou cool porque Joelma e Gaby Amarantos não parecem jovens antenadas que voltaram agora de uma temporada em Amsterdam?

Eu adoraria ouvir de gente que entende de música se tudo isso é uma grande bobagem, se toda grande cidade tem uma cena assim, ou se realmente Belém está em uma fase especial.

Vou poupar o mundo de análises mais longas sobre isso, já que eu sou fraquinho de conhecimento musical, mas se você não conhece esses caras, vale a pena clicar nos links e ouvir o que eles têm a mostrar. Escute com o coração aberto. Os ouvidos agradecem a novidade.

Mar 22, 20122 notes
Mar 20, 20122 notes
Por que a chuva de Belém é única

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Foto: Adriano Brilhante - Reproduzida por Eu Vivo Belém

Neste exato momento está chovendo em Belém. No momento anterior também. E também choveu ontem e anteontem e antes de anteontem e a semana toda e o mês todo. Faz três meses que chove.

Isso não quer dizer que chove sem parar. Desde que eu cheguei, houve pouquíssimos dias em que o sol não deu as caras, mesmo que de vez em quando seja uma aparição de rock star, breve, desejada e comentada. No inverno de Belém, não passa um dia sem fazer sol. E não passa um dia sem chover muito.

Mas o que mais me impressiona, neste clima daqui, é que a chuva nem sempre faz anúncios formais de que virá. Parece que ela segue a mesma etiqueta das pessoas, em relação às visitas. Outro dia, um amigo de Belém comentou que paraense não avisa quando vai à casa dos outros, simplesmente aparece. A chuva, aqui, é mais uma visita, que vem sem hora e vai-se embora quando bem entende.

Em São Paulo, uma visita assim seria um pouco inconveniente, a não ser que fosse de alguém muito, muito íntimo, tipo namorado ou filho. Lá, o fenômeno mais surpreendente é o frio, que aparece sem aviso no meio do dia. Você sai para trabalhar preparado para o calor e, na hora de voltar, a temperatura já caiu uns dez graus. A chuva, não, ela costuma avisar que vem. O dia muitas vezes já começa meio cinza e todo mundo olha pela janela e já sabe que há boas chances de chover. Às vezes, faz 24 horas de tempo nublado sem que a chuva venha, ela fica só avisando, para que os paulistanos se agendem direitinho.

Em Belém, não. Não sei o que se passa, mas o dia sempre começa com sol. Às oito da manhã, já está quente, quente. Eu olho pra fora e penso que, se eu não fosse trabalhar, seria um dia lindo para ir a Mosqueiro. Mas, lá pelo meio-dia, o sol vai embora, chegam as nuvens, o céu fica cinza-escuro e, em meia hora, o que era uma manhã de praia se transforma em uma tarde de escritório.

Então, chove como se não houvesse amanhã. As janelas tremem, as mangueiras balançam e se forma uma cortina espessa de água. Juro que em alguns dias eu olho pelos janelões do escritório e não consigo enxergar a paisagem. Mas, dali a uma meia hora, a chuva diminui, e em mais meia hora ela para. O céu abre um pouquinho e o sol pode até reaparecer, para novamente sumir às quatro da tarde e dar lugar a mais um dilúvio. A dupla sol e chuva pode repetir o balé às seis da tarde. Aí o trânsito trava na Avenida Nazaré, engessa na José Malcher e eu me sinto em casa novamente, olhando para o congestionamento e a chuvinha. Ainda bem que eu não pego carro.

Voltando à chuva forte, ela é clássica de Belém. Todo mundo sabe que no inverno vai chover, tanto que existe a famosa história de marcar um compromisso antes ou depois da chuva das duas da tarde. Mas parece que ela perdeu a pontualidade que tinha. Em geral, ela tem chegado antes das duas, e é essa antecipação que a torna imprevisível. É bem comum a gente sair para almoçar reclamando do sol na cara e, na saída do restaurante, ter que esperar a chuva passar.

Mais inesperada ainda é a outra versão da chuva belenense, a que vem mesmo com sol. Se o tal ditado “sol e chuva, casamento de viúva” fosse verdadeiro, Belém seria um polo mundial de turismo para idosos. Veríamos filas de vovós e vovôs chegando ao porto, à espera do próximo sol com chuva, que não tardaria muito.

Essa funciona assim: você sai sem guarda-chuva, porque só vai ali na esquina comprar pão e o sol está brilhando. Santa inocência. Começa a pingar enquanto você está no caminho. As outras pessoas, que pensaram como você, não param de andar, afinal, são só uns pinguinhos e está fazendo sol. Mas, quando você olha, está todo mundo molhado, inclusive você, porque “só uns pinguinhos”, no padrão amazônico, é uma baita chuva.

Fico com a impressão de que a chuva, em Belém, é uma necessidade imediata do céu, um surto sem hora marcada. Dá uma vontade louca de chover em alguém que controla isso lá em cima, e aí chove. É uma chuva solta, impulsiva, que vem quando dá vontade, parte quando sente que é hora - e paciência, para quem não gostar.

Ela se aproveita que é visita. Quem tem coragem de fechar o tempo para a chuva? Só ela tem o poder de fazer isso.

Mar 19, 20125 notes
Fiz essa conta no tumblr somente para comentar seus posts sobre Belém, tamanha a minha grata surpresa em ver alguém do Sudeste/Sul publicar(o que para mim, ainda é mais do que apenas dizer entre algumas pessoas) impressões desprovidas de qualquer etnocentrismo bairrista. Parabéns pela sensibilidade, pois muito do que escreveste sobre esta cidade que lhe acolheu, é como se um belenense rememorando as coisas da terrinha a tivesse escrito. Saudações papa-xibés, Alessandra Carneiro. =)

Poxa, Alessandra, fico feliz e sinceramente agradecido! Saber que esses posts mexem com as memórias de quem é belenense de nascença e crescimento é um orgulho pra mim! Saudações papa-xibés!

Mar 18, 20121 note
Mar 17, 20121 note
Adorei o seu blog!! Continue contando suas experiências por essa terra... Ah, seria legal se abrisse o blog para comentários! :*

Obrigado!! Pois é, eu quero abrir, sim, eu só não tinha descoberto como, heheheh…mas já vi que eu tenho que instalar um aplicativo, não é?

Mar 17, 2012
O Puerto Madero de Belém

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No centro velho de Belém, ensanduichado entre o vaivém de um terminal de porto e o calor do símbolo maior da cidade, o mercado Ver-o-Peso, um ar condicionado avassalador faz delirar de alegria quem gosta de temperaturas mais, digamos, paulistanas.

Você pisa na Estação das Docas e sua primeira fala é “aaaaaaaaah”! A bênção do mundo artificial! O homem consumindo energia e recriando Deus, em sua pretensão de controlar a temperatura ambiente. Mas, que maravilha parar de suar depois da caminhada até ali! Sim, porque a não ser já tenha passado das seis da tarde, o legal é chegar lá a pé, pela Avenida Presidente Vargas, que tem uma deliciosa cara de centrão, um pouco decadente, um pouco suja, mas ainda interessante.

Cinco minutos depois, é capaz de você estar com frio, mas o prazer térmico inicial logo vem seguido pelo prazer visual de passear pela Estação. Ali funcionavam dois galpões do porto de Belém, o grande “hub” de exportação da borracha brasileira para o mundo, no comecinho do século XX. Foi por causa desse porto, administrado por uma Companhia das Docas, que Belém viveu sua “belle époque”, o período em que a cidade se orgulhava das suas casas espetaculares, seu teatro municipal esplendoroso, suas ruas pavimentadas e seus hotéis de luxo, como aquele em que Mário de Andrade queria passar a vida. Mas o tempo passou, a borracha declinou, a cidade se agigantou e viu que um terminal de porto bem no centrão não tinha sentido, numa época em que as metrópoles já não se fazem de indústrias, mas de serviços.

Assim como Buenos Aires fez com seu Puerto Madero, Belém jogou uma parte do porto para um bairro mais distante e reformou os galpões do bairro central, para ali instalar restaurantes, bares e lojas.

A Estação das Docas não tem nem um terço do tamanho de Puerto Madero, que acabou virando um bairro. Também não tem a sofisticação de lá, mas, posso falar? Eu acho até mais interessante! O que faz toda a diferença na Estação é que os belenenses tomaram duas sábias decisões ao construí-la.

Primeiro, a de aproveitar de fato a vista da Baía do Guajará, onde ela se encontra. Bem em frente aos restaurantes, que além da zona de ar condicionado têm também mesinhas ao ar livre, existe um calçadão de pedra, com flores, coqueiros e guindastes que um dia ajudaram a levantar as cargas que Belém trocava com o mundo. Está tudo ali, bem diante das águas formadas pela junção do Rio Guamá com o Rio Acará, como explica a gloriosa Wikipedia.

Essas águas da baía são escuras, como as da maioria dos rios da Amazônia, mas, ainda assim, a paisagem é linda. Você tem ali a correnteza da água, uma área de florestas ao fundo, pássaros voando sobre o rio, uns barcos turísticos dando volta e tocando carimbó, esses incríveis guindastes antigos e…gente!

Esse foi o segundo acerto da Estação, fazer um lugar que se pode aproveitar a pé e de graça, graças! OK, os restaurantes induzem ao consumo e, por isso, existe uma certa elitização ali, sim. Por causa disso, os belenenses ironicamente chamam a Estação das Docas de Estação das Dondocas. Mas, honestamente, é bem possível passar umas horas legais por ali sem gastar um centavo, só sentado nos banquinhos de frente para o rio, olhando a vista, lendo um livro, vendo o movimento de barcos ou de famílias. Também dá tranquilo para gastar bem pouco e aproveitar o conforto das mesinhas ou do ar condicionado. Você senta ali, pede uma Coca gelada ou uma cerveja e fica lá batendo papo, sem precisar comer. Garçom nenhum vem encher o saco. E de fato eu vejo gente fazendo isso, sim. É porque ao contrário das cidades de praia, onde morar à beira-mar é o chique há décadas, Belém não conseguiu ainda reverter o tempo em que virou de costas para a água. A cidade se voltou para dentro e sobraram poucos lugares para sentir o cheiro do rio e tomar uma brisa - natural - na cara. O vizinho Ver-O-Peso sempre se manteve ali à beira, mas lá tem tanto cheiro no ar e tanto barulho que o espetáculo é ele mesmo, o mercado, e não o rio. Bem ou mal, a Estação deu um empurrão nesse papel de retomar o “sentar e olhar o rio”.  

Por isso tudo, depois de já ter passado pelo ar condicionado, você irá para a área externa e sua segunda expressão será “uaaaaauu”. Você vai passear pelo calçadão pensando “Obrigado, Belém, por não ter transformado este terreno em um prédio espelhado cafona ou em um pretenso lounge-chic com mesinhas VIPs a 200 reais para ver o rio”. Se você tiver sorte, o rio vai esar agitado neste dia e, de fato, você vai sentir o cheiro dele. Cheiro de rio, mesmo, em nada comparável ao fedor do Tietê e do Pinheiros, aquela vergonha que nós, paulistanos, não conseguimos ou não queremos resolver. E, se você for esperto e tiver ido no horário certo, cinco da tarde, você vai acompanhar a mesma paisagem em três momentos: com o brilho do sol na água, depois com o pôr-do-sol deixando o céu transtornado e, por fim, com a escuridão e algumas estrelas. Nada mal!

Então, será a vez da sua terceira fala, ”hmmmmmm”. Você vai estar com fome, vai se sentar numa das mesinhas do lado de fora, vai pedir um chope de bacuri bem gelado, ali na Amazon Beer, que produz a bebida ali mesmo, em belos tubos e tanques dourados que você poderá observar por um vidro, e uns bolinhos de pato no tucupi pra acompanhar.

Logo, será a vez de jantar pra valer. Você vai se mudar para as mesinhas do Lá em Casa, pedir o clássico filhote, o peixe mais gostoso que existe, com tucupi, jambu, farofa, e vai comentar com alguém “nossa, isso aqui devia ser o prato oficial do Brasil na ONU”.

Você estará cheíssimo, mas ainda vai se meter a tomar um sorvete da Cairu, porque não é justo ficar sem aquilo. Depois de experimentar setecentos sabores e nem se lembrar dos nomes do que você já provou, você pedirá dois sabores que nunca tomou e, enquanto se delicia novamente de frente para o rio, soltará um suspiro e pensará “É, eu até que podia viver aqui…”. E você estará certo.

Mar 16, 20121 note
“

Alguém que passou por aqui
Sentiu o calmo andamento do tempo
E vislumbrou vestígios da paisagem
Do paraíso da infância

Em alguma noite distante
Serei esse andarilho que sonhou contigo.

A insensatez e a ganância
Vão dissipar teus cheiros misturados
Da floresta com o oceano?
Apagar o riso de moças vestidas para o olhar?
Destruir teus bosques praças casarios
Teus templos de Landi e teu céu de telhas?
Tua altivez belle époque
Ou bela simplesmente?

Temo o inferno do futuro
Que já se insinua no presente.

Será eterna a cidade do Círio?
Belém é bíblica?

Assim espero.

”
—Milton Hatoum, em “Belém é bíblica?” (original nesse site)
Mar 16, 2012
Mar 15, 2012
Qual é o segredo dos casarões de Belém?

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Uma marca do “centro expandido” de Belém é que os casarões e predinhos antigos estão por toda parte. Eles são bem diferentes entre si, mas a fachada é sempre cheia de detalhes, as paredes são cobertas de azulejos, e as sacadas têm vasos de plantas. As portas são altas e os corredores estreitos levam a um pátio ou a um conjunto de salas amplas, daquelas onde as famílias tocavam piano e recebiam as visitas. 

Os que viraram restaurantes ou escritórios conservam pisos de madeira de lei e vidraças bacanas. Outros, mal têm piso e já tiveram as janelas até cimentadas. Em alguns, tem mato saindo pelas frestas e a pintura está tão desgastada pelas décadas de chuva que só dá para ter uma pálida ideia de qual era a cor da casa. E, mesmo quando estão decadentes, eles são bonitos. 

Eu não sou um cara saudosista em nada e sempre preferi prédio a casa, mas é engraçado como esses casarões e prédios baixos de Belém mantêm uma simpatia que os edifícios mais altões não conseguem segurar. Os prédios velhos de Belém parecem só prédios velhos, mas as casas velhas parecem sempre lugares onde a história da cidade se fez. 

Mar 13, 2012
10 pontos básicos para um paulistano entender Belém

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1)  Belém é uma metrópole

Todo mundo sabe que Belém é grande, mas, no Sudeste, muita gente não tem a dimensão de quão grande ela é. Belém tem três shoppings, todos superlotados, inclusive o que tem lojas de luxo, engarrafamento adoidado, balada indie, eletrônica ou de reggae, festival de ópera, hospital oncológico e preços de imóveis que fazem as pessoas falarem em bolha. Tudo o que caracteriza uma metrópole, da grande variedade de serviços aos problemas do inchaço urbano, Belém tem. Está longe de ser uma cidadezinha simpática, é uma cidade enorme e complexa, cheia de coisas interessantes. 

2) Não tem praia…não como em Fortaleza ou Rio

Como o Pará é próximo do Maranhão, é fácil associá-lo com o Nordeste, ao contrário do Amazonas, que está lá, claramente na região Norte. E para o paulistano, Nordeste é sinônimo de…praia! Logo, Belém deve ser mais uma dessas capitais da costa, que têm mar, calçadão, ciclovia e quiosque de coco, certo? Errado. Não tem nada disso. Quando eu falei que ia me mudar, algumas pessas disseram que adorariam morar na praia. Pois é, eu também, mas não é o caso. Até é fácil ir à praia em Belém, em meia hora de carro ou um pouco mais já se chega a Mosqueiro. Mas a cidade não tem aquela orla que vem à nossa cabeça quando pensamos em uma cidade litorânea. E fica à beira-rio, não à beira-mar.

3) Belenense não é nordestino

Outra ideia que deve vir da proximidade com o Nordeste é  de que o jeito de ser é muito parecido com o dos nordestinos. Como você, caro leitor paulistano, imagina o sotaque de Belém? Parecido com o do cearense? Se disse que sim, errou. Só as vogais abertas são parecidas - aquela coisa de falar “só-lidão”, e não “sô-lidão”. Mas todo o resto é diferente. As expressões são outras, o jeito de ser é diferente, a cidade tem outra cara, as pessoas têm traços diferentes, enfim, Belém é Amazônia, é uma cultura própria e bem típica, que tem várias diferenças em relação à nordestina (que, aliás, também varia bem de um lugar para outro, eu acho).

4) A cidade não é tão barata quanto você pensa

Eis algo que eu pensei, quando cheguei a Belém: tudo deve ser mais barato, então, meu dinheiro vai render bem mais. Bom, transporte, baladas e restaurantes são um pouco mais em conta, sim, porque em São Paulo parece que todo mundo perdeu a noção do quanto é razoável pagar por um táxi, um estacionamento, um jantar ou uma ida ao bar. Mas a diferença não é tão gritante, viu? E, em itens como aluguel e supermercado, é praticamente pau a pau. Por fim, no quesito roupas, Belém é um roubo. Quando eu preciso de algo novo, deixo para comprar em São Paulo, porque, aqui, as lojas legais cobram um “precinho extra” pelas mesmas roupas de lá.

5) Não tem floresta para toda parte

Belém é uma metrópole, vide o ponto 1. Da Estação das Docas ou de uns bares na beira do rio, a gente até vê trechos de floresta do outro lado do Guamá, mas a mata fechada, aquela que a gente imagina quando pensa na Amazônia, não está assim, no meio da cidade. Quando você visitar Belém, programe-se bem, se quiser ver a floresta de pertinho. Uma forma é pegar os barcos das Docas que vão a outras cidades ou os que fazem passeios turísticos, como o da Ilha dos Papagaios. Mas, reserve no mínimo meio dia para o passeio.

6) Não dá para ir e voltar de Manaus no intervalo do almoço

Uma vez, um amigo meu precisava consertar um produto quebrado e ligou para a central da empresa, para saber onde era a assistência técnica. O atendente, no call center em São Paulo, disse que não havia assistência autorizada em Belém, mas que ele poderia ir à assistência de Manaus. Como se a ida a Manaus fosse, assim, um pulinho na hora do almoço! Acontece que Belém é tão perto de Manaus quanto São Paulo é de Porto Alegre. Não é modo de dizer, a conta é essa, são duas horas de voo. Estar na mesma região não quer dizer estar pertinho, especialmente no Norte do Brasil.

7) O inverno é no verão e o verão é no inverno

Enquanto todos os paulistanos reclamam, no Facebook, que o calor está infernal neste verão, eu dou graças a Deus por de vez em quando poder dormir com o ventilador desligado. Em Belém, as temperaturas não mudam muito ao longo do ano, está sempre quente. Mas as chuvas, sim, mudam. Os meses mais quentes do ano, em São Paulo, entre novembro e maio, são os meses chuvosos de Belém, o que dá uma certa refrescada e faz o pessoal chamar este período de inverno. Em julho, quando meus amigos paulistanos estão marcando um fondue, os belenenses estão enlouquecidos para ir à paraia, porque o clima está extremamente quente e bem mais seco. Aliás, fica a dica: julho, agosto e setembro são os melhores meses para visitar Belém, porque, apesar do calor impressionante, você passeia o dia inteiro sem se preocupar com a próxima chuva.

8) Você não vai pegar geral

No Sul-Sudeste, a gente às vezes tem uma certa imagem de que “da Bahia pra cima” é tudo liberado, em termos de paquera e sexo. Talvez seja por causa do Carnaval e das micaretas, que vendem a imagem do “eu quero mais é beijar a boca”, ou talvez por uma certa visão distorcida do Norte-Nordeste. Mas não é bem assim que as coisas funcionam. As pessoas aqui falam mais naturalmente de sexo e paquera, sim. Fazem mais piada sobre isso e contam mais abertamente da sua vida íntima. Mas, não pense, leitor solteiro à procura, que você será loucamente assediado e que vai sair pegando geral só de abrir um sorriso. Lábia e respeito à vontade alheia também valem por aqui. Falar de sexo mais abertamente não significa querer fazer sexo o tempo todo e com qualquer um, certo?

9) A diversidade é menor, mas a convivência é maior

Tem uma camiseta vendida por aqui que diz ”Belém é um ovo de codorna anã”, o que é engraçadinho para um frase de camiseta, mas eu não acho que é tão fácil encontrar conhecidos por acaso. Provavelmente é porque eu conheço bem menos gente aqui do que em São Paulo, mas tenho a impressão de que lá eu encontrava com mais frequência algum amigo na fila do cinema ou de uma balada do que por aqui. São Paulo é gigante e você pode se divertir e se expressar como quiser, mas tem aquela história de ter lugares muito segmentados para cada idade, gosto e classe social, o que talvez torne até mais fácil esbarrar com as mesmas pessoas. Em São Paulo, o cara que gosta de rock não é “obrigado” a ir num bar de reggae, na 3ª feira, porque ele encontra balada rock todo dia da semana. Mas talvez isso faça com que ele encontre menos vezes o colega do trabalho que curte o Bob Marley. O cara milionário que quer ir passear no shopping pode ir ao Cidade Jardim e só encontrar milionários. E a menina patricinha que quer paquerar outras meninas patricinhas pode ir ao bar onde só tem meninas iguais a ela e encontrar a sua galera. Em Belém, parece que tudo é mais misturado. Pobre e rico, novo e velho, gays e héteros, roqueiros e micareteiros, todo mundo convive mais de perto, até por haver menos opções, o que às vezes gera cenas bem surpreendentes. E isso também torna mais difícil bater o olho em alguém e saber o perfil daquela pessoa já à primeira vista. Por exemplo, ricos e pobres são um pouco mais parecidos entre si do que em Sampa. Lá, até o sotaque muda, do centro expandido para a periferia. Um cara de Pinheiros, se bobear, tem dificuldade pra entender dois manos da Cidade Tiradentes conversando. Aqui, não, o jeito de falar é mais uniforme, todo mundo é mais informal, o tacacá que o pobre come é igual ao do rico. E isso gera uma experiência bem interessante para quem vem de uma cidade onde é mais fácil conviver só com quem parece com você.

10) Belenenses podem ser simpáticos. Ou não

Outro mito paulistano sobre o Norte-Nordeste é o da simpatia. Acho que, também nesse caso, isso se deve à influência da imagem que a Bahia vende de si. Muita gente no Sudeste imagina que as pessoas em Belém são sempre sorridentes, gentis e acolhedoras. Os próprios belenenses costumam se ver assim, aliás. Mas nem sempre são. É bem comum você ser mal atendido numa loja ou levar um esbarrão no corredor do supermercado e nem ouvir um pedido de desculpas. Os taxistas, então, costumam ser o oposto dessa imagem acolhedora. Vivem de cara fechada. Quem sou eu para julgar os motivos de cada um para estar assim, não é? Mas, para mim, isso mostra que a imagem do povo cordial é só parcialmente verdadeira. Acho que, simplificando, eu diria assim: grosso modo, paulistanos são mais educados, dizem mais “por favor” e “obrigado” e pensam mais no espaço do outro, enquanto belenenses são mais simpáticos e calorosos, dizem mais a verdade na lata e gostam mais de compartilhar seus espaços com os outros. Estilos diferentes e bacanas, cada qual à sua maneira.

Mar 13, 201228 notes
"Ah, não, desliga você"

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Opa, e aí, gente boa?

Diz a lenda que os belenenses se chamam assim. Eu nunca ouvi as pessoas se tratando desse jeito, por aqui, mas, se o anúncio da Yamada, a rede de supermercados mais paraense que existe, diz que é assim, é porque em algum momento deve ter sido. E chamar todo mundo de gente boa é uma atitude muito simpática e muito belenense, no melhor dos sentidos.  

Bom, gente boa, bem-vindo ao Paraulistano, um blog para explicar como é Belém, do ponto de vista de um cara impregnado de São Paulo.

Vou começar falando da minha primeira sensação, quando pisei por aqui. Mas, não se preocupe, porque eu não vou ficar descrevendo minhas aventuras uma a uma. Aliás, nem pretendo ficar contando da minha vida pessoal nesse blog. Eu sou um cara reservado, paulistano por todos os poros, lembra? Só vou falar de mim quando isso for relevante para entender Belém, que é o verdadeiro tema da página.

Além do mais, nesse primeiro post, vou contar com a ajuda de um outro paulistano, mais ilustre e hábil com as palavras do que eu. Um tal de Mário de Andrade. Oitenta e quatro anos antes de minha mudança para Belém, ele já tinha descrito uma sensação comum para muita gente que chega ao Pará, inclusive este que vos fala: um certo deslumbramento com a informalidade, o calor e o exotismo paraenses. Aquele sentimento de “nossa, como eu não pensei em conhecer isso aqui antes?”.

Nem todo mundo sente isso. Tem gente que detesta Belém à primeira vista - e dá para entender, porque a cidade tem seus defeitos. Mas eu acho que se você estiver disposto a sair daquilo que, no corporativês, as pessoas chamam de  ”zona de conforto”, há boas chances de se encantar.  

Cheguei a Belém em 12 de março de 2011, há exatamente um ano. Eu nunca tinha morado fora de Sampa e nem sabia o que esperar da cidade que eu estava adotando (ou que estava ME adotando) por causa de um novo trabalho. 

Na entrevista de emprego, uma das entrevistadoras, uma catarinense querida, contou que, nos seus primeiros dias de Belém, ela abriu a janela do apartamento onde estava, olhou a cidade e sentiu uma enorme vontade de ficar aqui para sempre. Sem motivo, só rolou aquela empatia com o lugar. Eu guardei aquela história na memória, mas, sinceramente, não achei que fosse se repetir comigo.

Na minha primeira hora como morador de Belém, ainda no táxi do aeroporto para o hotel, no fim da madrugada, eu só pensava se tinha feito a coisa certa. Maior medo de me arrepender. Será que o calor é insuportável? Será que eu vou ficar deprimido nos fins de semana? Será que eu vou me sentir eternamente de fora?

Eu me instalei no quarto do hotel com o dia quase nascendo e, quando abri a janela, me deparei com a vista registrada nessa foto aí no topo do post. Céu azul-escuro-que-fica-claro, a manhã começando a romper, e a vista da Praça da República, linda, cheia de árvores enormes, com o Teatro da Paz de cara para mim, uns papagaios voando enre as árvores e, lá no fundo, o sol começando a despontar…e não é que a tal empatia rolou pra mim também? Eu estava influenciado pela história que eu tinha ouvido. No fundo, eu queria sentir o mesmo, mas acho que nem precisei fazer esforço! Foi fácil gostar logo de Belém.

Nos dias seguintes, passeando pelo centro, andando pela Avenida Nazaré e tomando sorvete na orla do rio, o flerte virou namoro. E namoro é assim, tem dias em que a gente briga, diz que não quer mais se ver, fica marrento. Mas, no fim das contas, a gente se gosta. E mesmo quando não se gostar mais, eu vou lembrar com muito carinho dos meus dias de lua de mel com Belém. Foi assim mesmo que eu descrevi a alguns amigos o que eu estava achando daqueles primeiros dias. Eu me senti um pouco em lua de mel. Ou, então, naquela fase do namoro em que os dois ficam no telefone dizendo “desliga você”, “Ah, não, desliga você”. Ai, ai…

Bom, e como eu prometi chamar meu amigo Mário para me ajudar, aqui vai a descrição da lua de mel dele com Belém, em um carta ao seu outro amigo, Manuel Bandeira, escrita em 1927. Mário estava viajando pela Amazônia para registrar lendas e sons do Brasil, e tinha aquela avidez paulistana pelo novo, também no melhor dos sentidos.

Li este trecho da carta dele numa parede do Hotel Hilton, na própria Praça da República, onde tanto ele quanto eu achamos que Belém é bacana. Esta carta é famosa por aqui, mas eu não a conhecia até então. Juro que fiquei intrigado com a descrição. Dá uma olhada como foi o encontro dele com Belém.

“Manu, estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois dos nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas. Porém, me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrace em frente das mangueiras tapando o teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí. Você, que conhece mundo, conhece coisa milhor do que isso, Manu? (…) Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto essa confissão esquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim…”

Bonito, né? Lendo essa carta, tive um certo orgulho pela minha escolha. E a certeza de que essa experiência por aqui ia valer a pena.

Mar 12, 2012
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